Início do percurso na cidade de Santa Leopoldina. Ponte sobre o rio Santa Maria da Vitória, no local extremo até onde o mesmo era navegável. Porto de desembarque de mais de 12 mil imigrantes que entraram na colônia a partir de 6 março de 1857.

O Caminho do Imigrante foi idealizado durante o desenvolvimento do Projeto Imigrantes, do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Nasceu de uma necessidade de se ampliar o conhecimento sobre a história da imigração no Estado, praticando os mesmos trajetos percorridos pelos camponeses imigrantes que aqui chegaram desde o início do Século XIX.

Tomamos por base as descrições contidas nos documentos históricos do Arquivo Público, de livros clássicos sobre o assunto, como: Karina, de Virginia Tamanini, e Canaã, de Graça Aranha, que registraram em suas obras, referências importantíssimas desse percurso, muito trilhado por seus personagens. O caminho, devido à sua importância estratégica, também assumia o papel de personagem principal nessas obras-primas da ficção capixaba.

Porém, o maior legado da importância histórica desse caminho, que foi utilizado pelos primeiros imigrantes para alcançar a tão sonhada Mèrica em terras capixabas, é aquele registrado como memória, fruto da tradição oral, referenciado pelos milhares de seus descendentes.

Testemunhas oculares também foram os tropeiros que levavam produtos a serem consumidos pelos camponeses e traziam aqueles produzidos pelos colonos e vendidos na praça comercial de Santa Leopoldina. Aí então entravam novamente em cena os canoeiros do rio Santa Maria, geralmente negros, que desde o período da escravidão trilhavam o “caminho fluvial” do rio Santa Maria até alcançar Vitória para também levar e trazer os imigrantes e seus produtos à bordo das canoas. São muitas as histórias deixadas por estes desbravadores o que dignifica ainda mais a importância da região dentro do contexto da imigração no Espírito Santo.

Andarilhos seguem pela antiga trilha por onde passavam as tropas.

A abertura dessas veias de comunicação por entre a densa floresta da Mata Atlântica tornava-se um dos maiores desafios para os desbravadores, já desiludidos pelas promessas dos agenciadores de que aqui encontrariam estradas, terrenos prontos para o cultivo, utensílios para o trabalho, entre outros itens necessários à sua subsistência. A Mata Atlântica, então, era uma muralha verde a ser vencida. Ali, o colono deveria tirar o seu sustento, exibindo o solo nu da grande floresta; abrindo picadas e preparando o terreno para receber as sementes que lhe daria o pão e o tão sonhado progresso.

Esse pedaço da história é retomado como lembrança de um tempo heróico de nossos antepassados que agora são homenageados pelos caminhantes, neste início de século XXI; porém, sem as antigas armas e adversidades encontradas por aqueles “primeiros trilheiros”.

Estão agregados, então, outros valores demandados pela realidade deste início de Século XXI: a preservação da natureza, homenagem aos imigrantes desbravadores; um maior conhecimento da história aliado ao lazer turístico; prática de exercícios físicos, entre outros objetivos particulares de cada caminhante.

Nos braços dos canoeiros estava a força do progresso de Santa Leopoldina, responsáveis pelo transporte dos passageiros e mercadorias produzidas na região.

Buscamos então parcerias para a realização do evento, contando com o apoio exclusivo de várias instituições do Governo do Estado do Espírito Santo, Secretaria de Estado da Cultura; das Prefeituras de Santa Leopoldina e de Santa Teresa, bem como de diversas entidades dos municípios envolvidos.

E nada mais adequado para realizar a primeira edição do Caminho do Imigrante em 2004, ano em que comemoramos os 130 anos da Imigração Italiana no Brasil, cuja referência é a chegada dos 388 colonos da Expedição Tabacchi, a bordo do navio Sofia, ocorrida em 17 de fevereiro de 1874, no Espírito Santo, queira ou não alguns historiadores do Sul brasileiro.

Além disso, o percurso escolhido não poderia ser outro senão aquele trilhado pelos imigrantes que se libertaram das mãos de Tabacchi e subiram o rio Santa Maria para alcançar os lotes coloniais no então recém-criado Núcleo Colonial de Timbuhy, abrindo novas trilhas – caminhos que hoje buscamos refazer – e fundando assim a primeira cidade italiana do Brasil: Santa Teresa.

Essa mesma trilha foi então ampliada em 1919 para servir de estrada para o trânsito de automóveis. Foi a primeira no Espírito Santo. Inaugurada pelo então governador, Bernardino Monteiro (ficando denominada assim de ES-080- Bernardino Monteiro), antes mesmo que Vitória possuísse veículos. Na região, com o progresso das colônias e do comércio do café colhido pelos imigrantes, a realidade já era outra.

Cachoeira Véu da Noiva. Uma das belezas
naturais, junto ao percurso, presenteada
aos caminhantes.

A data fixa escolhida para a realização do evento não poderia ser outra senão o 1º de Maio, Dia do Trabalho, feriado internacional, pois foi por meio do trabalho que milhares de famílias, formadas por crianças, jovens, adultos e idosos, entraram no hinterland capixaba empregando a cultura herdada dos ancestrais e agregando novos conhecimentos adquiridos dos antigos capixabas, contribuíram para o desenvolvimento do Estado.

Caminho do Imigrante já é um sucesso entre os caminhantes, trilheiros capixabas e de outros Estados do país. É grande a participação dos descendentes daqueles imigrantes que há mais de 130 anos abriram as primeiras trilhas em meio à densa floresta tropical da então Colônia de Santa Leopoldina e que hoje se empenham para completar os 29 Km do percurso. Prova disso, é o crescente número de participantes a cada edição do evento. A primeira edição contou com a presença de mil pessoas e a quarta, em 2007, superou a quantia de 2.500 andarilhos.

O evento já faz parte do calendário oficial dos dois municípios envolvidos e muito vem colaborando para divulgar a importância turística da região. O conteúdo histórico-cultural do evento é uma alavanca que agrega valor a atividade mais rotineira dos seres humanos: caminhar. É bom e faz bem à saúde!

Participe!

Caminho é citado em duas importantes obras literárias

O escritor Graça Aranha cita o caminho que foi percorrido pelos principais personagens de sua obra-prima, Canaã: “E os dois caminhavam afastando-se do Porto do Cachoeiro [porto de Santa Leopoldina] na direção de Santa Teresa. A princípio a estrada cortava por cima de pequenos morros descobertos, onde, numa paisagem acidentada e limpa, passeavam errantes as sombras das nuvens; daí a momentos ela morria na boca da mata. Milkau e Lentz, ao penetrarem na escuridão repentina e fria, sentiram pelos olhos o véu de uma ligeira vertigem. Pouco a pouco eles se recompuseram, e então admiraram.”

Em Karina, a escritora Virgínia G. Tamanini assim descreve a abertura do caminho: “A trilha foi se alargando dentro da floresta e a estrada se assentando cada dia um pouco mais. Quase um ano, entretanto, ainda decorreria até que nossos homens alcançassem o núcleo colonial. Foram recebidos com festas pelos imigrantes que os haviam antecedido, responsáveis pela picada primitiva, origem daquela estrada”.

Fonte: http://www.caminhodoimigrante.es.gov.br/